O público que encheu a praça, a banda de Alcochete que a iluminou, o curro Eng.ºLupi e Rio Frio, os cavaleiros e os forcados, foram os asterismos que formaram na praça de toiros Carlos Relvas numa constelação brilhante.
Quando os astros se alinham, o resultado só pode ser qualquer coisa de grandioso e em Setúbal foi exactamente isso que aconteceu esta noite.
Comecemos pelo curro de duas ganadarias, que teve excelente apresentação, com peso e trapio, de nota e comportamento acima da média (à excepção de um).
Os de divisa verde e amarela de Rio Frio, deram bom jogo. Cumprindo, dois dos três exemplares transmitiram e tiveram mobilidade até ao fim, dando evidencia às reuniões, já que traziam a cara lá acima, não obstante a nobreza.
Com o ferro Engº Samuel Lupi, de marcada linha Murube-Urquijo e de cuja suavidade sobejamente se tem falado – saíram os três toiros da segunda parte com características muito positivas, com muita mobilidade e fijeza, somadas à nobreza e à tal suavidade que lhes são tão características.
Para estes toiros houve cavaleiros!
Sónia Matias lidou o terceiro e quinto da ordem. O seu primeiro toiro foi o único manso do lote, que incessantemente procurava motivos para se distrair. Foi a única lide em que não se escutou música, apesar do empenho da cavaleira e do bom impacto que teve nas bancadas esse esforço para sacar o toiro das tábuas e para cravar bons ferros nesses terrenos como acabou por acontecer.
No segundo toiro, a cavaleira entendeu-se e desenhou uma lide correspondente ao bom momento da sua carreira. Regular na ferragem comprida, teve nos curtos os melhores predicados, dos quais se destaca o terceiro ferro – que reuniu consenso nas bancadas, tal como os dois violinos com que fechou a noite.
Apareceram depois duas estrelas com muita vontade de brilhar.
João Moura esteve muito bem esta noite. Na primeira lide foi emocionante do princípio ao fim. Os ladeares oferecendo o estribo, os ferros ao piton contrário cravados na sequência da brega e os remates das sortes, tudo ligado, como em órbita, fazendo um conjunto deveras bonito. Havia muitas saudades deste Moura e foi amplamente aplaudido de início ao fim.
Ligeiramente diferente, a lide do segundo toiro foi igualmente de êxito. Sem tantos adornos entusiásticos dos ladeares, o cavaleiro andou de frente, pisou terrenos e foi sempre subindo de tom até aos dois últimos ferros de palmo, selando uma noite redonda.
Rui Fernandes esteve muito bem esta noite. E começamos o parágrafo da mesma maneira, porque, de facto, o cavaleiro repartiu triunfo com Moura e brilhou igualmente na constelação.
No primeiro toiro, que demorou a meter-se na lide e se mostrava um pouco reservado,soube contornar e veio subindo o timbre, para a partir do terceiro curto levantar o público, entre os adornados cites e os ferros cravados com batida ao corno contrário.
O seu segundo oponente andou em sentido inverso e veio de menos a mais. Saiu com muito som e até ao terceiro curto, quer as reuniões quer os remates resultaram com grande impacto. Dali, Fernandes entendeu que o toiro pedia sítio e muito templado, deixou os últimos três ferros com bonito desenho.
Prosseguindo a metáfora, houve também muito brilho nas pegas consumadas esta noite pelos Amadores de Alcochete e Aposento da Moita.
Pelos Amadores de Alcochete:
Tiago Domingos cumpriu bem os primeiros tempos da pega mas, não se tendo acoplado, saiu com um forte derrote do exemplar. Corrigiu e pegou à segunda tentativa sem mácula, numa pega à córnea em que recebeu uma boa primeira ajuda.
Bruno Pardal viu o toiro defender-se e bater sem humilhar, apesar de o vir trazendo toureado. Consumou ao segundo intento à barbela, com o toiro a empurrar com pata.
Fernando Quintela brindou a pega da noite à banda de Alcochete, que o brindou a si com o pasodoble “Forcado Amador de Alcochete” na volta e segunda chamada aos médios. Muito bem na cara do toiro, mandou e fechou-se decidido a aguentar os vários derrotes que o toiro imprimiu já em tábuas.
Pelo Aposento da Moita:
José Henriques executou uma pega limpa à córnea, a que o grupo correspondeu com muita coesão.
Vítor Epifânio não esteve bem nas duas primeiras tentativas, faltando-lhe carregar, consentir e recuar nos momentos certos. À terceira, consumou com as ajudas mais carregadas aguentando depois vários derrotes com o toiro parado, concretizando com decisão.
Pedro Brito de Sousa fechou a noite com uma grande pega em técnica exemplar e a aguentar um derrote forte – muito bem ajudado pelo grupo.
Sara Teles